O silêncio dos outros é mais silêncio que o meu
O dr. Mário Soares não tem parado de se referir ao (alegado) silêncio do prof. Cavaco Silva. A esse respeito já elaborou as mais diversas teses: de falta de conteúdo democrático do visado, a falta de densidade política, passando pela inevitável lacuna cultural. Agora diz o dr. Mário Soares que o (alegado) silêncio do prof. Cavaco radica no facto deste “não estar de bem consigo próprio” e afirma que a sua candidatura radica na vontade de vingar a derrota eleitoral face ao dr. Sampaio. Aparte da surpresa de vermos o dr. Soares no papel de psicanalista ‑ algo que mais facilmente veríamos no dr. Sampaio, dadas as manifestas afinidades familiares ‑ esta afirmação não traz nada de novo.
O que começa a ser manifestamente evidente é que o dr. Soares ou sofre de um qualquer distúrbio do sono que o leva a ter pesadelos constantes com o prof. Cavaco, ou não tem mais nada para dizer aos portugueses. Ou, ainda, de uma conjugação das duas. Esta deve ser, aliás, a mais provável das explicações para este frenesim de afirmações sobre Cavaco Silva.
Entre silêncios, alegações de silêncios e ruído provocado pelos próprios candidatos, vai sendo claro que o dr. Soares disse ainda muito pouco sobre o que está em causa nesta eleição presidencial, para além da eleição, ou não, do prof. Cavaco Silva. A este último já o ouvimos (quem o queira e saiba fazer!) afirmar que o natural em democracia é beneficiarmos de estabilidade e de governos de legislatura. Ao prof. Cavaco Silva já ouvimos reiterar o respeito para com os poderes constitucionais do Presidente da República tal qual estão actualmente formulados na Constituição. Ao prof. Cavaco Silva já ouvimos dizer da sua disponibilidade para debates e entrevistas. Mas também é verdade que dele têm vindo alguns silêncios. O silêncio da crítica aos seus adversários na eleição presidencial. O silêncio quanto aos métodos, alguns pouco curiais, utilizados para o criticar. Nesse aspecto tem havido silêncios.
Mas não se fique com a ideia errada. Do dr. Mário Soares também tem havido silêncios… E muitos! Silêncio quanto ao facto de há pouco mais de 6 meses ter dito que não voltaria a ser candidato presidencial. Silêncio quanto ao contraditório com Manuel Alegre e ao menor respeito para com a ética republicana. Silêncio quanto à perspectiva de intervenção no caso de ser eleito em Janeiro próximo: que intervenção poderemos esperar dele? Um PR à semelhança do que fez no seu primeiro mandato ou mais em conformidade com a sua segunda fase de PR? Como pensa controlar democraticamente uma maioria parlamentar e dignificar as instituições nacionais? A quantos congressos pensa emprestar o seu contributo? Qual a sua posição concreta perante políticas orçamentais de controlo do défice e da despesa do sector público? O que fará se um dia se confrontar com uma situação similar a Jorge Sampaio aquando da decisão de Durão Barroso em ir para Bruxelas? Como encara os poderes de dissolução do parlamento na presença de maiorias parlamentares estáveis e em que circunstâncias exerceria o poder de dissolução do parlamento? Tudo isto são silêncios do dr. Soares que contrastam imensamente com o ruído que tem provocado ultimamente. Ruído esse que tem sido para fazer uma de duas coisas: ou atacar Cavaco ou enaltecer a sua pessoa.
Por tudo isto, é mais do que legítimo concluir que quem parece não andar de bem consigo próprio é o dr. Soares que, muito provavelmente, quererá vingar o fim do bloco central às mãos de Cavaco. São 20 anos de ressentimento que, em larga medida, servem para enquadrar a forma e o conteúdo da acção e das palavras do dr. Soares para com o prof. Cavaco.
Ah, e não se esqueçam que, como escreveu António num seu cartoon, "Soares é fish!"...

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